Vamos conversar? Acolhimento entre surdos e ouvintes

Inclusão de Surdos

A comunidade surda vem ganhando espaço no cenário nacional e internacional, com propagandas e outros programas televisivos com janela de Libras, pronunciamentos oficiais com legenda em Língua Portuguesa e janela de Libras, ator surdo sendo indicado ao Oscar, participante de BBB ensinando Libras a seus colegas de programa e várias leis que dão acessibilidade linguística nos mais diversos espaços de socialização.

No entanto, poucos são aqueles que sabem de algumas questões fundamentais para os surdos. Por exemplo:

Você Sabia?

– Que os surdos não são mudos? Eles não têm nenhum problema nas cordas vocais e por isso não são mudos, então chamá-los de “surdos-mudos” ou de “mudinhos” é altamente desaconselhável.

– Que não adianta falar mais alto ou gritar, pois os surdos não escutam nenhum som? Aqui vale salientar a diferença entre surdo e deficiente auditivo. O surdo não tem resquício auditivo e por isso não escuta nada. Já o deficiente auditivo, dependendo do grau, escuta vários sons e tem a possibilidade de colocar um aparelho amplificador de som. Neste último caso, falar mais alto ou gritar pode contribuir na comunicação, mas no caso dos surdos não.

– Que a legislação brasileira reconhece a Língua Brasileira de Sinais – Libras, como uma língua oficial do Brasil, se juntando à Língua Portuguesa e às diversas línguas indígenas? Logo, não devemos usar o termo linguagem de sinais, pois é uma língua, com gramática constituída com elementos próprios, que se estruturam a partir de mecanismos fonológicos, morfológicos, sintáticos e semânticos.

– E ainda, que não existe uma língua de sinais universal?  A língua de sinais, como qualquer outra língua, é a marca de um povo e de uma nação. Assim, cada país possui sua própria língua de sinais. Inclusive, países que usam a mesma língua oral, como Brasil e Portugal, ou Estados Unidos e Inglaterra, não usam a mesma língua de sinais. Não conheço nenhuma língua de sinais que seja usada por mais de um país.

As barreiras da aprendizagem

Diante destas premissas, percebemos o quanto é difícil o acolhimento de surdos na comunidade ouvinte e de ouvintes na comunidade surda.

Quando pensamos em maioria linguística, logo nos confrontamos com números de dimensões incomparáveis, visto que os surdos representam menos de 5% da população, e que parte deste grupo não é sinalizante ou seja, não faz uso da Libras, mas da língua portuguesa oral (usam recursos como leitura labial, escrita e até oralizam).

Comparando com as línguas indígenas, destacamos mais um diferencial, visto que os índios de uma mesma tribo ocupam um território específico o que facilita a aprendizagem e comunicação em sua própria língua. No entanto, os surdos estão espalhados por todo o país e podem ter dificuldade de encontrar outros surdos para aprenderem e praticarem sua própria língua.

Há surdos que vivem em cidades pequenas do Brasil que nunca encontraram um outro surdo, e desta forma não tem parceiro linguístico para aprender a Libras, que deveria ser sua língua materna. Já imaginou viver numa cidade sem ninguém falando português? Como faríamos para aprender esta língua? A língua é uma aquisição social, então a convivência é imprescindível para o seu desenvolvimento.

Vamos conversar? Acolhimento e socialização

Então, o que podemos fazer para acolher o surdo?

Como em todas as relações interpessoais não há receita pronta, mas podemos pensar em algumas pistas para favorecer a relação entre surdos e ouvintes.

Primeiro precisamos saber que os surdos têm uma diferença linguística e não possui nenhuma deficiência cognitiva por ser surdo, logo ele pode aprender e se desenvolver como qualquer ouvinte.

Outro aspecto importante é o conhecimento de alguns sinais básicos da Libras para promover uma interação mais direta, sem a intervenção do intérprete, gerando um conforto linguístico e uma aproximação entre as pessoas.

Que tal aprender bom dia, boa tarde, obrigada, por favor, como vai, você aceita algo, precisa de ajuda; estas são algumas palavras e expressões que podem auxiliar no dia a dia, na socialização. E ainda, de acordo com o local em que convivemos com os surdos, podemos aprender algo mais específico de nossa área de atuação.

Minha experiência de convivência com surdos acontece no meu espaço de trabalho, já que sou professora de um curso bilíngue de pedagogia, e neste recebemos alunos surdos e ouvintes.

Aprendo diariamente com os surdos traços de sua cultura que contribuem para que tenhamos um ambiente pedagógico mais frutífero, com troca de aprendizagem entre todos. Os alunos surdos são extremamente visuais, então quando conseguimos atrelar um conceito à uma imagem, facilita muito a compreensão.

Algumas ideias para ajudar

Pode-se colocar lembretes de ações que precisam ser desenvolvidas com imagem. Este procedimento facilita a comunicação e consequentemente a realização da atividade.

Por que não fazer as avaliações em Libras, uma vez que o nosso objetivo, em muitas disciplinas, é a aprendizagem de um conteúdo específico e não a aprendizagem de Língua Portuguesa?

Podemos ainda promover a integração entre alunos surdos e ouvintes com organização de grupos de trabalho que os mesclem. Desta forma, incentivaremos a integração e a contribuição mútua de conhecimentos.

E por fim, mas não menos importante, por que não aprender Libras? Conhecendo a Libras, a maior barreira de integração será quebrada, visto que sem comunicação não há socialização.

Para fechar nossa reflexão, recomendo fortemente que assistam o filme “No ritmo do coração” (versão americana) ou “A família Belier” (versão francesa), que mostra o cotidiano de uma família mista, com integrantes surdos e ouvintes e todos os desafios cotidianos que eles vivem.   

=> Nota da friendsBee: o correto é escrever Libras, e não LIBRAS. A razão é que cada letra não representa uma palavra diferente – Libras (Linguagem Brasileira de Sinais).

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Yrlla é Pós Doutorada em Educação pela Université Descartes Paris, Doutora em Educação pela UNICAMP e atua como professora do Curso Bilíngue de Pedagogia do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES).

>> Conheça mais sobre Libras

>>Conheça mais sobre Inclusão:

  1. Uma mãe executiva no mundo do Autismo
  2. Diversidade e Inclusão, uma jornada de Respeito

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